|
 |
|
31/03/2008 02:03
|
|
Brasil - 31 de março, porque é preciso
lembrar...! |
Elaine Tavares
O dia 31 de março é um dia
que precisa ficar muito vivo na memória de
todos os brasileiros. Foi no 31 de março, em
1964, que os militares, aliados a uma
contra-ofensiva estadunidense ao que
chamavam de "comunismo" do governo de Jango
Goulart, deram um golpe de estado que
resultou em mais de 20 anos de ditadura.
Naqueles dias, havia uma efervescência
popular, com lutas importantes no campo e na
cidade. As ligas camponesas avançavam na
organização, buscando a sonhada reforma
agrária que acabaria com a cara
latifundiária do país.
Dias antes do golpe, o presidente Jango, num
comício gigantesco na Central do Brasil, Rio
de Janeiro, apresentou ao povo brasileiro as
reformas de Base que seu governo iria fazer.
Uma delas era a reforma agrária, entre
outras que apontavam para mudanças
estruturais e uma transformação verdadeira
do país. Naquele histórico comício Jango
anunciou a desapropriação das terras
devolutas às margens das rodovias federais e
informou que estavam limitadas as remessas
de divisas ao exterior. Isso gerou a reação
imediata das forças conservadoras que apenas
esperavam nas sombras, depois de terem
tentado, por diversas vezes, tirar o poder
das mãos do presidente, herdeiro da era
Vargas.
Como resposta ao comício do Rio, os
conservadores realizaram a Marcha com Deus e
a Família pela Liberdade. A inspiração veio
de campanhas muito parecidas organizadas nos
Estados Unidos pelo padre Patrick Peyton,
contra o que chamava de "manobras
vermelhas". Era o auge da luta contra o
comunismo naquele país. Qualquer semelhança
com o discurso atual do presidente
estadunidense George Bush não é mera
coincidência. Só que agora os inimigos não
são mais os comunistas, e sim os
"terroristas", que, no fundo, para ele, é a
mesma coisa. Basta falar em mudanças para
melhorar a vida do povo que lá vêm os
poderosos com mão de ferro defender o que
chamam de democracia e liberdade.
Universalizam um discurso de algo que só
eles desfrutam. É o mesmo ataque que faz
hoje a elite na Venezuela, na Bolívia e no
Equador. Os presidentes que iniciam uma
caminhada de mudanças são demonizados.
Reformas ou transformações sociais são
sempre consideradas "ameaças" à democracia.
Naqueles dias, de um triste 64, aqui no
Brasil foi igual. João Goulart e suas
reformas de base eram a ameaça comunista. E,
assim, quando o primeiro de abril amanheceu,
os tanques estavam nas ruas, obedecendo -
diziam - ao chamado das famílias cristãs que
pediam a liberdade. Na verdade, os militares
assumiram o governo porque era meros
"gerentes" da doutrina estadunidense de
dominação na América Latina. Cuba era uma
ferida recente e as lutas populares
fervilhavam em todo o continente. O grupo
golpista do exército brasileiro, acatando a
vontade do mestre do norte, não queria as
mudanças estruturais, não queria o povo
conquistando direitos, não queria a terra
repartida. E, ao longo dos anos de ditadura
- também assessorados pelos Estados Unidos -
provocaram o terror, o assassinato de
lideranças populares, a tortura e a
destruição dos movimentos sociais. Foram
mais de 20 anos de feroz desmonte da vida
social e seus efeitos ainda são sentidos até
hoje.
Neste dia 31 de março muita gente, saudosa,
vai lembrar dos "bons tempos" e não vai
faltar na mídia quem fale do perigo vermelho
que ainda está por aí travestido de Hugo
Chávez, Rafael Correa, Fidel Castro e Evo
Morales. É que existe muita gente que
prefere o povo calado, assustado, com medo,
submisso, sem poder. Porque se o povo se vê
como sujeito, a coisa muda e eles perdem
seus privilégios de classe dominante.
Mas, gente há que sonha e luta por um tempo
de claridão, em que o povo recupere sua
palavra, em que as terras sejam repartidas,
que a vida seja solidária e as bênçãos
coletivas se dêem na reciprocidade. Gente há
que não tem medo de caminhar abrindo
caminhos, de descortinar o que está apenas
vislumbrado, de desvelar o escondido. Gente
há que tem orgulho de ser socialista e
acreditar que é possível uma vida diferente
da que é proposta pelo capital.
Sempre haverá, é certo, os que caminharão,
cegos, nas passeatas pela "liberdade" dos
poderosos. Mas, os que lembram dos nomes dos
desaparecidos, dos mortos, dos torturados,
estes seguirão por outras veredas. As almas
dos caídos no tenebroso espaço de tempo da
ditadura iniciada em 1964 aqui estão, a nos
olhar nos olhos. Vamos abraçá-las neste dia,
um abraço de irmão. Porque nenhum de nós vai
esquecer, nunca. E elas viverão nas lutas
que travamos e nas que virão!
Companheiros mortos e desaparecidos da
ditadura militar! Presentes!
Fonte: www.adital.com.br
|
|

|
|
|