01/03/2008
01:48
Manifestantes defendem
uso de células-tronco embrionárias em
pesquisas
Irene Lôbo
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Portadores de
doenças graves, como distrofia muscular,
câncer e alzheimer fizeram ontem (29) um
protesto em frente ao prédio do Supremo
Tribunal Federal (STF), na praça dos Três
Poderes, para pedir que os 11 ministros da
mais alta corte de justiça do país votem na
próxima quarta-feira (5) a favor do uso de
células-tronco embrionárias em pesquisas
.
Vestidos com camisetas brancas e com lírios
cor de laranja nas mãos, jovens como as
irmãs Gabriela e Mariana, adultos como Luís
Maurício e Patrícia e idosos como Carlos
Patto soltaram uma dezena de balões brancos
representando a esperança que têm de um dia
voltar a viver sem problemas de saúde.
Luís Maurício Alves dos Santos, vítima de
acidente de trânsito e membro do Fórum de
Apoio às Pessoas com Deficiência, segurava
um abaixo-assinado que o movimento irá
entregar aos ministros para pedir a
liberação das pesquisas com células-tronco
de embriões. Na próxima quarta-feira (5), o
STF inicia a votação da Ação Direta de
Inconstitucionalidade (Adin) 3.510 proposta
pelo ex-procurador geral da República
Cláudio Fonteles que pede a exclusão do
artigo 5º da Lei de Biossegurança (Lei
11.105/05), que prevê o uso dessas células.
Santos acredita que os ministros vão votar
contra a Adin.
“Passou pelo Congresso, pelo Senado com 96%
de aprovação dos senadores e 85% dos
deputados e o presidente Lula [Luiz Inácio
Lula da Silva] sancionou a lei, o que é
positivo. Infelizmente tem a questão
religiosa, essa divulgação errada que
considera o embrião um ser vivo, como se as
pessoas vivas não tivessem também direito à
sua própria vida”, afirma.
O coronel da Força Aérea Brasileira
aposentado Carlos Anibal Pyles Patto,
presidente da Associação Parkinson Brasília,
diz que gostaria de perguntar aos ministros
do STF o que eles pretendem fazer com as
células-tronco embrionárias que já estão
armazenadas em laboratórios do país mas não
vão mais ser utilizadas para fins de
reprodução humana.
“Porque mais cedo ou mais tarde elas [as
células] vão ser destruídas, e se vão ser
destruídas por que não utilizá-las? Essa
pergunta é que eu não consigo resposta”,
afirma.
Segundo ele, a Igreja Católica faz questão
de impedir o uso dessas células, no entanto,
trouxe como tema da campanha da fraternidade
deste ano a questão da vida. “Mas ela [a
Igreja] está indo contra a vida de uma
porção de pessoas que têm Parkinson,
alzheimer e várias outras doenças”.
A funcionária pública Patrícia Almeida já
teve dois tumores cancerígenos de origem
genética, de tireóide e de mama. Ela - que
viu a mãe morrer por causa de câncer -
espera que as pesquisas com células-tronco
embrionárias tragam esperança para os mais
novos.
“Eu acho que é uma questão de bom senso
porque você ainda não tem uma função vital
antes do embrião ser instalado dentro do
útero, ali é só uma possibilidade de vida. E
você vai trocar isso pela vida de pessoas
que já estão aqui, e estão tendo doenças
degenerativas e morrendo? Então vamos dar
esperança a essas pessoas, vamos avançar com
a ciência e não andar para trás”, defende.
Uma família inteira também estava à porta do
STF pedindo que as pesquisas com
células-tronco embrionárias não sejam
proibidas. Trata-se da família das irmãs
Gabriela e Mariana Veloso, ambas com
distrofia muscular de cintura.
Gabriela, 32 anos, gestora pública, tentou
aos seis anos fazer uma aula de balé e não
conseguiu. Era o início de uma doença que a
deixaria paraplégica aos 27 anos. “Eu
acredito muito no discernimento dos nossos
julgadores, dos ministros, e sobretudo eu
acredito em Deus. Em vários casos são
pessoas que têm doenças muito graves,
letais, e essas pessoas têm pressa. Essas
pesquisas representam a única esperança, o
resto é paliativo”, diz.
Mariana, 30 anos, publicitária, descobriu
que tinha o mesmo problema da irmã quando
tinha sete anos e perdeu a força dos
músculos. Para ela, a aprovação do uso de
células-tronco de embriões significa
esperança. “Para todo mundo que precisa, não
só para as pessoas que têm distrofia
muscular, mas para quem tem diabetes,
alzheimer...a gente está lidando com o tempo
de vida dessas pessoas.”
Ontem, (29), no Rio de Janeiro, o ministro
da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu a
aprovação de pesquisas com células-tronco
embrionárias. Para Temporão, a liberação dos
estudos colocará o Brasil “em pé de
igualdade” com os centros de pesquisas mais
avançados do mundo.