07/02/2008
Para
historiador, abadá baiano é símbolo de
preconceito e segregação
Adriana Brendler
Repórter da Agência Brasil
“Na
Bahia, o abadá representa um determinado
preconceito, uma afirmação de um segmento
social mais elitizado”. A opinião é do
historiador carioca André Diniz, secretário
de Cultura de Niterói (RJ) e autor do
Almanaque do Carnaval, publicado em
janeiro deste ano pela editora Zahar.
Para Diniz, o abadá
abafou a riqueza cultural do axé, que já
representou a união entre grupos sociais
distintos na Bahia, e hoje contribui para a
segregação financeira e estética no
carnaval.
Em entrevista à Rádio
Nacional, o escritor disse que a
segregação no carnaval baiano existia antes
do axé, quando as pessoas de menos posses
brincavam separadas dos que tinham melhor
situação financeira. E que o surgimento do
trio elétrico na década de 50, com Dodô e
Osmar, foi um marco que conseguiu unificar a
festa.
“Você tem um carro que
vai arrastando todo mundo e todos podem
brincar juntos. Esse é um marco de
unificação muito forte e começa a ser
exportado. Ele vai se unir aos estilos
afro-descendentes da Bahia, aos tambores
africanos, e faz surgir essa musicalidade
muito rica que remonta ao samba do recôncavo
baiano e é conhecida como axé”, contou
o historiador.
Para Diniz, no entanto,
embora marcado pela riqueza cultural e
musical, o axé trouxe embutida, com o abadá,
a segregação estética e financeira. Ele
citou como exemplo o caso, narrado em seu
livro, de uma moça que, mesmo tendo dinheiro
para pagar o abadá, não pôde entrar em um
trio elétrico porque não atendia a
determinado padrão de beleza.
“Hoje na Bahia os únicos
blocos em que se pode sair sem abadá são Os
Filhos de Gandhy e o Ilê Ayê – o resto é
tudo com abadá. Ou seja, a riqueza e a
beleza do axé, que ganhou a mídia, a
indústria de massa e tornou-se um produto do
mercado, foi um pouco abafada por causa do
abadá”, afirmou.