01/02/2008
21:00
Bloco afro-brasileiro
lembra os quase 120 anos do fim da
escravidão no país
Hugo
Costa - Agência Brasil
Enviado especial
Salvador
(Bahia) - O bloco Malê Debalê conta a partir
de hoje (1º) aos foliões do carnaval de
salvador a saga da vida dos negros
brasileiros após mais de um século de
abolição da escravidão.
Com o tema “Áurea, 120 anos. E nós?”, mais
de quatro mil carnavalescos devem sair às
ruas para, por meio da arte, colocar a
situação dos afro-descendentes na pauta das
discussões sociais.
Participante do bloco há sete anos, Jane
Sales aprovou o questionamento temático
proposto para este ano. Na opinião dela, o
fim da escravidão não rendeu as condições de
igualdade e os frutos almejados pela
população negra.
“Após 120 anos, queremos saber o que mudou
em relação ao racismo e ao preconceito. Há
uma interrogação no tema. Na minha concepção
não mudou nada. Continuam o racismo, o
preconceito e a falta de respeito com as
mulheres negras”.
Sales, que dança e ajuda nas confecções das
roupas do Malê DeBalê, conta ter sido vítima
de preconceito em diversas situações. E
critica tentativas de ignorar o racismo.
“As pessoas estão sempre tentando disfarçar.
Mas não mudou nada. Você pode até ter
estudo, mas um branco com certeza tem a
preferência. Eu já passei por isso. Já
aconteceu de eu entrar em uma loja para
comprar perfume e perceber os olhares
diferentes e as pessoas de pele clara
receberem mais atenção”.
A Lei Áurea, que extinguiu oficialmente a
escravidão no Brasil, foi assinada em maio
de 1888. Mas a desigualdade racial
aindapersiste no país.
Um relatório
divulgado pela Organização Internacional
do Trabalho (OIT) no ano passado mostra, por
exemplo, que os trabalhadores
afro-descendentes recebem salários 33%
menores em relação aos brancos.
Fundado em 1979, o Malê Debalê foi inspirado
em lutas históricas de ancestrais negros.
“Malês” é como eram chamados os povos
africanos de religião muçulmana que lutavam
contra a escravidão no Brasil.
Além das aparições no carnaval, o bloco
realiza várias atividades ao longo do ano.
Na sede da organização, no bairro de Itapuã,
aulas de música, dança e informática são
oferecidas gratuitamente à população. No
local também funciona uma escola de ensino
básico.
“No final da década de 90, os blocos
começaram a entender que eles também têm um
papel social. Outros blocos irmãos também
tendem a ter esse novo pensamento. O Malê
passa a ser agora uma entidade cultural com
outros olhares para a comunidade”, garante
um dos diretores do bloco, Carlos Eduardo
Carvalho.Os integrantes do Malê Debalê
participam do circuito do Campo Grande. O
bloco tem saídas previstas para hoje, amanhã
e segunda-feira.