O truque
dos cartões no país da
Super-Receita
Ruy
Fabiano
O
uso perdulário dos cartões
corporativos de crédito por
parte de integrantes do primeiro
escalão do governo federal -
superando a cada ano o recorde
anterior - não é, em si,
novidade
O
uso perdulário dos cartões
corporativos de crédito por
parte de integrantes do primeiro
escalão do governo federal —
superando a cada ano o recorde
anterior — não é, em si,
novidade. Isso, porém, não o
torna menos condenável. Um
hábito — sobretudo quando é mau
— não se legitima pela
constância. Muito pelo
contrário. Pior quando expressa
distorção deliberada de algo
concebido com sentido
construtivo. É o caso.
O
uso dos cartões corporativos, no
âmbito do primeiro escalão
governamental, teve início no
governo Fernando Henrique
Cardoso. O objetivo era
estabelecer controle e dar
transparência aos gastos, já que
os cartões registram hora e
natureza das despesas.
Desburocratizava-se assim a
prestação de contas, tornando-a
mais precisa e menos sujeita a
manipulações. Agilizava-se ao
mesmo tempo o processo
administrativo. O extrato mensal
dos cartões detalha as despesas
do usuário, o que o torna bem
mais confiável que a clássica
prestação de contas dos
relatórios burocráticos.
Eis, porém, que esse objetivo
saneador e simplificador foi
malversado por um truque
engenhoso que se disseminou em
grau epidêmico no governo Lula:
o saque em dinheiro por meio do
cartão, impedindo que se saiba a
natureza das despesas.
Os saques em espécie deveriam
constituir exceção — e não
regra. Exemplo de exceção: um
ministro ou um alto funcionário
vai visitar populações
ribeirinhas na Amazônia e
precisa fazer frente a gastos de
transporte em canoas. Terá que
pagá-los em espécie, pois não
terá como fazê-lo por outro meio
em tal ambiente. Não há como
pagar canoeiros com cheques,
cartões ou mesmo débito em
conta. Inevitável, pois, que se
faça o saque em espécie para as
despesas. Não há, porém, muitas
outras situações análogas.
Argumenta-se que haveria
despesas de agentes de segurança
da Agência Brasileira de
Inteligência (Abin) que
justificariam o saque em
espécie, pois, em alguns casos,
não podem deixar pistas de seu
roteiro, pois violariam quesitos
indispensáveis de sigilo. Que
seja. Isso, porém, não poderia
justificar o espantoso dado,
extraído dos relatórios da CGU,
segundo o qual 77,6% dos R$ 75,6
milhões gastos em 2007 com
cartões corporativos — mais de
dois terços das despesas —
representam saques nos caixas
eletrônicos, num montante de R$
58,7 milhões (equivalentes a
mais de 10 vezes o investimento
no programa de eletrificação
rural Luz para todos).
Essa modalidade de uso dos
cartões inverte o sentido de
transparência que justificou sua
adoção. E cria zonas cinzentas
em torno de sua legitimidade,
que induzem à convicção de que
algo de podre permeia o
processo. Por que, por exemplo,
a ministra da Igualdade Racial,
Matilde Ribeiro, cuja pasta não
é exatamente das mais ativas e
atarefadas da Esplanada dos
Ministérios, foi campeã no uso
do cartão corporativo em 2007,
registrando gastos sete vezes
superior ao segundo colocado, o
ministro da Pesca, Altemir
Gregolin?
O cartão pessoal da ministra
registrou em 2007, em média,
gastos mensais de R$ 14,3 mil,
cerca de 40% a mais que seu
salário, que é de R$ 10,7 mil. A
ministra Marina Silva, do Meio
Ambiente, cuja pasta exige
número bem maior de
deslocamentos, e para regiões
bem mais distantes do país,
registrou o gasto mensal mais
modesto da Esplanada: R$ 2,4
mil.
É possível (embora improvável)
que as suspeitas sejam
totalmente infundadas e cada
ministro tenha explicação
plausível a dar. Mas o uso
distorcido desses cartões,
mediante saque em espécie, dá
margem a todas as especulações,
sobretudo às piores, e impõe um
freio de arrumação imediato
nesse tipo de procedimento.
Os dados mais recentes da
Controladoria Geral da União (CGU)
dão conta de que os gastos em
2007 com os cartões corporativos
superaram em 129% os de 2006 —
que, por sua vez, superaram em
100% os de 2005, que superaram
os de 2004 em 46%. A tendência,
como se vê, é de alta constante.
A cada ano, quando se divulgam
esses dados, os órgãos de
controle — CGU, Tribunal de
Contas da União — prometem dar
um basta, mas não dão. O
resultado é que, para o
contribuinte, que acaba de ser
brindado com nova alta de
impostos, sem que haja qualquer
melhora na contrapartida da
prestação dos serviços públicos,
a revelação desses números é
simplesmente intolerável.