22/04/2008
16:18
Desativada por ser barata?
A cena foi comovente. O vice-presidente José
Alencar preparava-se para plantar uma árvore
em Brasília quando foi abordado por uma
nissei de 65 anos e 1,60 m de altura. Era
manhã da quinta-feira 6.
A mulher começou a mostrar fotografias de
crianças esqueléticas, brasileiros com
silhueta de etíopes, mas que tinham sido
recuperadas com uma farinha barata e
acessível, batizada de "multimistura".
Alencar marejou os olhos. Pobre na infância
no interior de Minas, o vice não conseguiu
soltar uma palavra sequer. Apenas deu um
longo e apertado abraço naquela mulher, a
pediatra Clara Takaki Brandão. Foi ela quem
criou a multimistura, composto de farelos de
arroz e trigo, folha de mandioca e sementes
de abóbora e gergelim.
Foi esta fórmula que, nas últimas três
décadas, revolucionou o trabalho da Pastoral
da Criança, reduzindo as taxas de
mortalidade infantil no País e ajudando o
Brasil a cumprir as Metas do Milênio. E o
que a pediatra foi pedir ao vicepresidente?
Que não deixasse o governo tirar a
multimistura da merenda das crianças. Mais
do que isso, ela pediu que o composto fosse
adotado oficialmente pelo governo. Clara já
tinha feito o mesmo pedido ao ministro da
Saúde, José Gomes Temporão - mas ele optou
pelos compostos das multinacionais, bem mais
caros. "O Temporão disse que não é obrigado
a adotar a multimistura", lamenta Clara.
Há duas semanas a energia elétrica da sala
de Clara dentro do prédio do Ministério da
Saúde foi cortada. Hoje, ela trabalha no
escuro. "Já me avisaram que agora eu estou
clandestina dentro do governo", ironiza a
pediatra. Mas ela nem sempre viveu na
escuridão. Prova disso é que, na semana
passada, o governo comemorou a redução de
13% nos óbitos de crianças entre os anos de
1999 e 2004 - período em que a multimistura
tinha se propagado para todo o País.
Desde 1973, quando chegou à fórmula do
composto, Clara já levou sua multimistura
para quase todos os municípios brasileiros,
com a ajuda da Pastoral da Criança, reduto
do PT. Os compostos da multimistura têm até
20 vezes mais ferro e vitaminas C e B1 em
relação à comida que se distribui nas
merendas escolares de municípios que optaram
por comprar produtos industrializados. Sem
contar a economia: "Fica até 121% mais caro
dar o lanche de marca", compara Clara.
Quando ela começou a distribuir a
multimistura em Santarém, no Pará, 70% das
crianças estavam subnutridas e os
agricultores da região usavam o farelo de
arroz como adubo para as plantas e como
comida para engordar porco. Em 1984, o
Unicef constatou aumento de 220% no padrão
de crescimento dos subnutridos. Dessa época,
Clara guarda o diário de Joice, uma
garotinha de dois anos e três meses que não
sorria, não andava, não falava. Com a
multimistura, um mês depois Joice começou a
sorrir e a bater palmas. Hoje, a
multimistura é adotada por 15 países. No
Brasil só se transformou em política pública
em Tocantins.
Clara acredita que enfrenta
adversários poderosos. Segundo ela, no
governo, a multimistura começou a ser
excluída da merenda escolar para abrir
espaço para o Mucilon, da Nestlé, e a
farinha láctea, cujo mercado é dividido
entre a Nestlé e a Procter & Gamble . "É
uma política genocida substituir a
multimistura pela comida industrializada",
ataca a pediatra. A coordenadora nacional da
Pastoral da Criança, Zilda Arns, reconhece
que a multimistura foi importante para
diminuir os índices de desnutrição infantil.
"A multimistura ajudou muito", diz. "Mas só
ela não é capaz de dizimar a anemia; também
se deve dar importância ao aleitamento
materno." ISTO É" procurou as autoridades do
Ministério da Saúde ao longo de toda a
semana, mas nenhuma delas quis se
pronunciar. "O multimistura é um programa
que não existe mais", limitou-se a informar
a assessoria de imprensa.