Morrer sem amor? Nem morta!

Publicado em 16/05/2022 às 23:47 por Redação

Por Jorge Hilário



Escrever dói, não pense você que quando estou escrevendo estou feliz, é exatamente o oposto disso: quando ler um conto, poema ou qualquer espécie de escrita assinada pelo meu nome lembre-se que meu coração está bombeando sangue — não necessariamente para o pulmão, porque esse já se encontra em estado de falecimento pela falta do sangue, mas sim para fora do meu corpo, que agora também jaz frio e solitário escoado na calçada sem tempo para um último suspiro.

Se você vier aqui me perguntar como foi morrer, direi que não tenho remorso, morri de amor, simples assim, a verdade nua e crua estampada nos cadernos de contos e poesias assinados por mim. Eu morri muitas vezes antes de parar de morrer mesmo. Sofri tanto nessa vida que abracei a morte como uma velha companheira, de tão apaixonado entreguei meu coração para a velhota encapuzada e me entreguei, descansei depois de tanto sofrer.

Eu morri em cada versão minha sobre o amor, em cada vez que escrevi sobre o amor, em cada linha de trem enferrujado que passou levando a esperança da minha vida, deixando um sopro gelado e um silêncio ensurdecedor, reduzindo a cinzas meu corpo cansado.

Eu morri tantas vezes que sequer tenho coragem de contar para vocês, mas a vez que mais doeu foi quando vi Lucrécia se casando com Amaro. Ai Deus, quanta dor caberia nesse meu frágil coração? Posso dizer que muita, porque naquela noite estrelada de São João meu coração batia descompensado, não sabia quem mais fazia doer meu coração, Lucrécia ou Amaro. Naquela noite tive que me fazer presente nos abraços de Genaro, outro que não merecia nem um terço do meu calor. Ali morreu uma parte de mim, a parte mais romântica.

Se bem que teve a vez que eu morri quando parei de amar e foi aí que eu descobri que apesar de tanta dor, é preferível amar e ter o coração dilacerado do que viver em eterna amargura. A verdade é que no fim das contas todo mundo vai passar pelas mãos gélidas da criatura das profundezas, aquela que a gente não quer receber o beijo tão cedo. Desse modo, sabendo que todos teremos o mesmo destino, é preferível se deixar levar pelos prazer inacabados do amor. Nesse instante morreu minhas crenças, dando espaço para o meu lado cético e tortuoso.

Teve uma época que eu me questionei: mato o amor ou o amor me mata. Foi uma briga terrível, meu coração querendo lutar, mas já tava quase parando de tanta dor, de tanto dissabor, de tanto chorar. A chuva caindo do lado de fora traduzia as lágrimas que caíam incessante pelos meus olhos frágeis, mas logo me recompus, botei um vestido branco, bati no peito e quando saí de casa me dei conta que estava caminhando para a igreja, era casamento de Romero com Beatinha, quase que dei um troço — lá ia eu morrer mais uma vez de amor. Dessa vez pensei que um desmaio cairia bem, algo dramático, chamativo, mas decidi mesmo por tropeçar e bater a cabeça.

E num é que os danados conseguiram casar? Quando me dei conta estava lá sentindo minhas costas geladas deitada em cima de uma mesa gelada como mármore, uma luz amarelada iluminando minha cabeça, um monte de aparelho ligado no meu corpo, um barulho sem parar fazendo um tal de bip, bip, bip, foi só aí que eu ouvi o carão do médico me encarar e falar na lata: — é minha filha, melhora esse amor ou o amor vai te matar.

E vocês acham que eu melhorei? Pois num contei pro ceis? Eu prefiro morrer pelo amor do que morrer sem ele. A vida é curta demais para não sofrer um cadim por aqui e por ali, e de cadim em cadim eu vou terminando minha história, porque quinta-feira é dia de atender criente e hoje a peãozada tá toda fazendo fila pra jantar na pensão da tia Bernadete.

Jorge Rafael Hilário Rodrigues, advogado inscrito na OAB/MG sob o número 184.339, especialista em direito e processo penal, formado pela FDCL - Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete. Sobrevivente de um mundo caótico e cada vez mais imerso em futilidade, mas que procura encontrar a felicidade em tempos sombrios e utiliza da escrita para esvaziar os sentimentos ruins.

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