Ouro Preto, 

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14/10/2008 21:15

O RECADO DAS URNAS

Geraldo Mendes*

 Depois de passada a euforia da vitória e a ressaca da derrota, uma avaliação sobre o recado vindo das urnas do último dia cinco de outubro, é de fundamental importância.

Ainda que o PT de Ouro Preto tenha saído derrotado das urnas, é de extrema relevância entender e, principalmente, atender o que os eleitores disseram.

O PT, que a princípio era base governista do atual governo, foi colocado na oposição pelo prefeito, ao ser exonerado. Depois, o Partido dos Trabalhadores optou por ficar na oposição e agora, nas eleições, os eleitores concretizaram o fato nas urnas, dizendo:

-Queremos o PT na oposição!

E assim será. O PT será oposição. O que para a cidade será muito importante. É impossível haver democracia onde há unidade de pensamento. Onde todos abaixam a cabeça e dizem amém. A oposição surge justamente para cobrar ações, alertar desvios e apontar rumos. E com certeza, haverá muito trabalho para exercitar o papel da oposição. A começar pelo que se viu na campanha...

Em um artigo para o Jornal Estado de Minas, Frei Betto alerta: “nas atuais campanhas, o mais dramático é constatar que se troca a ética pela estética. Não importa se o candidato é bandido, corrupto ou incompetente. Uma boa imagem fala mais que mil palavras. Assim, opera-se a progressiva despolitização da política (...) a escolha do candidato baseia-se não em propostas e programas, e sim em simpatias e empatias”.

O atual prefeito, que foi reeleito, nem sequer apresentou um programa de governo, ao contrário de seu adversário. Estrategicamente forçou seu discurso no continuísmo. O que trouxe à lembrança o tempo dos coronéis, onde se dava um pé de bota para o eleitor e depois da eleição - caso fosse vencedor - dava o outro.

O que se viu foi exatamente isto. Várias obras foram abruptamente iniciadas e, em seguida, paralisadas. O discurso era fácil: “essa obra só será terminada se ganharmos... cuidado!!!”. Nesse caso, não se pode culpar o eleitor por se ver convencido com tal artifício, pois o povo quer é resultado, não é mesmo?

Vencer uma eleição a qualquer custo pode ser e é muito perigoso. Corre-se o risco de ter de satisfazer interesses alheios (que não são poucos) e esquecer do principal: atender única e exclusivamente os anseios do povo.

Algum leitor mais “espirituoso” poderá dizer que esse texto é obra de quem perdeu as eleições. Mas como já foi dito antes, isto se trata de uma avaliação e o papel de se fazer oposição, desde já iniciado... nada mais.

Na política não há espaço para mágoas ou ressentimentos. Aos vencedores cabe o dever de agir e fazer; aos perdedores, o trabalho de refletir e reconstruir os caminhos. No entanto, será que só aos perdedores cabe a reflexão? Por que os políticos têm sempre de rever seus caminhos? E os eleitores, onde ficam?

É urgente e necessário inverter o discurso. É muito fácil dizer que “político é tudo igual”; “Político é tudo corrupto”; “Político é tudo safado!!!” E o eleitor que se deixa comprar, ou que coloca preço em seu voto?

Só existe o corrupto porque existe quem se deixa corromper. Isso é notório. Afinal de contas, quantas denuncias por tentativa ou compra real de votos foram feitas pelo eleitor? Difícil acreditar que não houve essa prática por aqui. No mais, fica a pergunta: Quem quer encabeçar tal discurso? Os corruptos ou os corrompidos?...

Para terminar, fica registrado mais um recado iluminado desse grande homem e político chamado Frei Betto: “Se a sociedade não se empenhar na educação política de seus cidadãos, em breve teremos legislativos e executivos ocupados apenas por corruptos, milicianos, lobistas e fundamentalistas. Então, o país se verá reduzido a uma imensa Chicago dos anos 30, com os Al Capones dando as cartas ao arrepio das leis, de um lado, e os Bin Laden versão tupiniquim de outro, convencidos de que, em nome de sua religião, foram escolhidos por Deus para governar erradicando o pecado, ou seja, combatendo a ferro e fogo todos que não rezam pela cartilha deles”.

O PT surgiu da adversidade, por isso jamais fugirá da luta.

Aos desavisados um último recado: Aprende-se mais com as derrotas que com as vitórias...

"De tanto ver triunfar as nulidades,

de tanto ver crescer as injustiças,

de tanto ver agigantarem-se os poderes

nas mãos dos maus, o homem chega

a desanimar-se da virtude,

a rir-se da honra,

a ter vergonha de ser honesto".

Ruy Barbosa

*Geraldo Mendes é Vice-presidente do PT/Ouro Preto