O RECADO DAS URNAS
Geraldo Mendes*
Depois
de passada a euforia da vitória e a ressaca da
derrota, uma avaliação sobre o recado vindo das
urnas do último dia cinco de outubro, é de
fundamental importância.
Ainda que o PT de Ouro Preto tenha saído
derrotado das urnas, é de extrema relevância
entender e, principalmente, atender o que os
eleitores disseram.
O PT, que a princípio era base governista do
atual governo, foi colocado na oposição pelo
prefeito, ao ser exonerado. Depois, o Partido
dos Trabalhadores optou por ficar na oposição e
agora, nas eleições, os eleitores concretizaram
o fato nas urnas, dizendo:
-Queremos o PT na oposição!
E assim será. O PT será oposição. O que para a
cidade será muito importante. É impossível haver
democracia onde há unidade de pensamento. Onde
todos abaixam a cabeça e dizem amém. A oposição
surge justamente para cobrar ações, alertar
desvios e apontar rumos. E com certeza, haverá
muito trabalho para exercitar o papel da
oposição. A começar pelo que se viu na
campanha...
Em um artigo para o Jornal Estado de Minas, Frei
Betto alerta: “nas atuais campanhas, o mais
dramático é constatar que se troca a ética pela
estética. Não importa se o candidato é bandido,
corrupto ou incompetente. Uma boa imagem fala
mais que mil palavras. Assim, opera-se a
progressiva despolitização da política (...) a
escolha do candidato baseia-se não em propostas
e programas, e sim em simpatias e empatias”.
O atual prefeito, que foi reeleito, nem sequer
apresentou um programa de governo, ao contrário
de seu adversário. Estrategicamente forçou seu
discurso no continuísmo. O que trouxe à
lembrança o tempo dos coronéis, onde se dava um
pé de bota para o eleitor e depois da eleição -
caso fosse vencedor - dava o outro.
O que se viu foi exatamente isto. Várias obras
foram abruptamente iniciadas e, em seguida,
paralisadas. O discurso era fácil: “essa obra só
será terminada se ganharmos... cuidado!!!”.
Nesse caso, não se pode culpar o eleitor por se
ver convencido com tal artifício, pois o povo
quer é resultado, não é mesmo?
Vencer uma eleição a qualquer custo pode ser e é
muito perigoso. Corre-se o risco de ter de
satisfazer interesses alheios (que não são
poucos) e esquecer do principal: atender única e
exclusivamente os anseios do povo.
Algum leitor mais “espirituoso” poderá dizer que
esse texto é obra de quem perdeu as eleições.
Mas como já foi dito antes, isto se trata de uma
avaliação e o papel de se fazer oposição, desde
já iniciado... nada mais.
Na política não há espaço para mágoas ou
ressentimentos. Aos vencedores cabe o dever de
agir e fazer; aos perdedores, o trabalho de
refletir e reconstruir os caminhos. No entanto,
será que só aos perdedores cabe a reflexão? Por
que os políticos têm sempre de rever seus
caminhos? E os eleitores, onde ficam?
É urgente e necessário inverter o discurso. É
muito fácil dizer que “político é tudo igual”;
“Político é tudo corrupto”; “Político é tudo
safado!!!” E o eleitor que se deixa comprar, ou
que coloca preço em seu voto?
Só existe o corrupto porque existe quem se deixa
corromper. Isso é notório. Afinal de contas,
quantas denuncias por tentativa ou compra real
de votos foram feitas pelo eleitor? Difícil
acreditar que não houve essa prática por aqui.
No mais, fica a pergunta: Quem quer encabeçar
tal discurso? Os corruptos ou os corrompidos?...
Para terminar, fica registrado mais um recado
iluminado desse grande homem e político chamado
Frei Betto: “Se a sociedade não se empenhar
na educação política de seus cidadãos, em breve
teremos legislativos e executivos ocupados
apenas por corruptos, milicianos, lobistas e
fundamentalistas. Então, o país se verá reduzido
a uma imensa Chicago dos anos 30, com os Al
Capones dando as cartas ao arrepio das leis, de
um lado, e os Bin Laden versão tupiniquim de
outro, convencidos de que, em nome de sua
religião, foram escolhidos por Deus para
governar erradicando o pecado, ou seja,
combatendo a ferro e fogo todos que não rezam
pela cartilha deles”.
O PT surgiu da adversidade, por isso jamais
fugirá da luta.
Aos desavisados um último recado: Aprende-se
mais com as derrotas que com as vitórias...
"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver crescer as injustiças,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega
a desanimar-se da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".
Ruy Barbosa
*Geraldo Mendes é Vice-presidente do PT/Ouro
Preto