11/04/2008 15:45
Comissões buscam formas de controlar ação de
empresários do futebol
Como criar
formas de controlar a atuação de empresários que
agenciam adolescentes interessados em jogar em
clubes do futebol? Esta foi a principal questão
levantada na reunião conjunta das Comissões de
Participação Popular e de Educação, Ciência,
Tecnologia e Informática da Assembléia Legislativa
de Minas Gerais, nesta quinta-feira (10/4/08). O
presidente da Comissão de Participação Popular,
deputado André Quintão (PT), foi quem fez os
questionamentos, após ouvir os participantes, para
que buscassem respostas.
Na audiência pública, que teve como objetivo debater
a exploração de crianças e adolescentes na prática
do futebol de rendimentos, um dos caminhos foi
apontado pelo deputado João Leite (PSDB). Ele
sugeriu à Federação Mineira de Futebol (FMF) que, a
exemplo da Fifa, também adote um credenciamento
rigoroso para os agentes que atuam em Minas. "A
federação tem capilaridade, está presente em todo o
Estado e poderia normatizar a questão, para dar mais
segurança aos clubes e à família do jogador",
opinou. Por sua vez, André Quintão pediu à
assessoria da ALMG que realize um estudo quanto à
viabilidade de um projeto para regulamentar a
atuação de agenciadores em âmbito estadual. "Em
nível nacional, isso é feito pela Lei Pelé. É
preciso saber o que poderíamos fazer em relação a
Minas", afirmou.
Grupo de trabalho - Quintão informou ainda que, no
início deste ano, foi formado um grupo de trabalho
para verificar situações em que poderiam ser feridas
as leis trabalhistas e o Estatuto da Criança e do
Adolescente. Desse grupo, fazem parte o Ministério
Público, o Ministério Público do Trabalho, o
Ministério do Trabalho, o Poder Judiciário e
entidades da sociedade civil de defesa da criança e
do adolescente, além dos clubes de futebol e FMF.

Ações foram desencadeadas após reportagens
A coordenadora do Fórum Estadual de Combate ao
Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente, Elvira
Velloso de Melo, complementou a informação dizendo
que o grupo foi criado após reportagem do jornalista
Bernardino Furtado, do Estado de Minas. As matérias
mostraram o problema vivido por jovens que saem do
interior, trazidos por agentes de futebol que
prometiam colocá-los em clubes da Capital mineira e
outras do País. Em sua maioria de famílias pobres,
esses adolescentes muitas vezes não conseguem
oportunidade nos clubes e são colocados sob
condições degradantes, em alojamentos sem condições
de higiene, sem direito a freqüentar escola e com
alimentação deficiente.
Elvira relatou casos de jovens que há quatro anos
não viam suas famílias; outros já haviam viajado até
para o exterior sem autorização dos pais,
caracterizando tráfico de adolescentes. Ela disse
que, como resposta aos problemas levantados, o
Ministério Público do Trabalho já criou um grupo de
estudo para redigir um termo de ajustamento de
conduta nacional.
A promotora de Justiça da Infância e Juventude
Matilde Fazendeiro Patente acrescentou que há casos
de crianças com menos de 12 anos trazidas para Belo
Horizonte sem autorização dos pais. E lembrou que
muitos jovens nos alojamentos não tinham qualquer
atendimento médico, odontológico e farmacêutico, nem
acesso a atividades culturais e de lazer. Nesses
casos, o Ministério Público instaurou procedimento
administrativo e acionou promotores das cidades onde
viviam as crianças para aplicar medidas pertinentes,
junto aos adolescentes e aos pais.
O assessor jurídico da FMF, Luiz Alberto de Rezende,
disse que a questão passa em primeiro lugar pelos
pais. "Muitas vezes os pais se escoram nas crianças,
como se elas tivessem a obrigação de conseguir um
futuro melhor para a família", afirmou. E
acrescentou que esses jovens, quando chegam à
federação, já passaram pelas mãos de muitas pessoas
inescrupulosas. Mas lembrou que a entidade exige que
o jovem apresente atestado escolar, comprovando que
estuda.
Clubes - Representantes dos três maiores clubes da
Capital, além do Vila Nova, também deram seus
depoimentos, falando sobre o trabalho desenvolvido
em cada uma das agremiações. Os representantes do
América, Atlético e Cruzeiro afirmaram que os clubes
têm dado condição digna aos jovens atletas,
oferecendo escola, atendimento médico e odontológico
e alimentação completa.
O deputado Carlin Moura (PCdoB) elogiou os
participantes da reunião, que segundo ele demonstram
a seriedade com que a questão está sendo tratada em
Minas. Ele defendeu maior participação do poder
público, com implementação de políticas de inclusão
social através do esporte. "Os clubes são
importantes nisso, mas o trabalho deles é
complementar. O poder público tem que contribuir
mais nessa área", exigiu. O presidente da Comissão
de Educação, deputado Deiró Marra (PR), defendeu que
a discussão não fique restrita à questão
trabalhista, mas que atente para os direitos dos
adolescentes.
Requerimento - Antes da reunião conjunta, a Comissão
de Participação Popular aprovou requerimento
solicitando visita ao Centro de Internação
Provisória Dom Bosco e à Divisão de Orientação e
Proteção à Criança e ao Adolescente, atendendo a
pedido da Associação de Defesa dos Usuários,
Consumidores e Contribuintes de Minas Gerais.
Presenças - Deputados André Quintão (PT), presidente
da Comissão de Participação Popular; João Leite
(PSDB), Carlin Moura (PCdoB) e Deiró Marra (PR),
presidente da Comissão de Educação, Ciência,
Tecnologia e Informática.