É alarmante o que Ouro Preto outras cidades passaram devido ao enorme volume de chuvas. Há que se considerar que não é a natureza a causadora total dos estragos. Lamentavelmente a falta de estrutura por parte do poder público, a falta de um plano Diretor urbano, que não leva à sério grandes trabalhos de conscientização sobre as áreas de riscos, que não liberam e providenciam outras áreas e as urbanizam para abrigar este pessoal que sem ter para onde ir, vivem em constante preocupação quando as chuvas se aproximam.
Em 1984, o Prof. Dr. Glycon de Paiva, Engº de Minas, formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, e um dos fundadores do BNDES escrevia na Revista Ciências da Terra, vol.9, e também publicado na REM- Revista Escola de Minas, 1984, vol. 44, nºs 2 e 3 e no ano 2000, Rem, vol. 52, nº2 alertando sobre a “Importância do mapeamento Geológico Urbano do Brasil”: … “os levantamentos geológicos em nosso país, sob o ponto vista de prioridade… sobre as zonas urbanas e arredores… que não tem um subsolo homogêneo. Cumpre-se descobri lhe a estrutura e geometria para com maior segurança, e menor custo, aproveitá-lo para serviços infra estrutural das urbes…para fundações de prédios, contenção de encostas, garantia de equilíbrio ecológico…”
“o uso vantajoso das informações geológicas no aproveitamento urbano… ajudaria, em muito, o exercício de atividades cruciais da população, com a tarefa de morar melhor e com segurança; de transporta-se mais inteligentemente nas urbes; de prover-se de recursos de uso próprio e imediato para construir seu lar, como areia, argila, cal agregados e pedra…”.
Por que deixam tudo para a última hora?
Algumas cidades da nossa região repetem o mesmo cenário de destruição, de falta de respeito à vida humana, da falta de iniciativa política, da falta de um plano Diretor sobre o assunto. Em Conselheiro Lafaiete há décadas o rio Bananeiras já transbordava, já causava danos. Mas mesmo assim o rio continua em situação caótica o que deveria receber mais atenção até por respeito e amor à natureza.
O engenheiro Ricardo Rocha, escreveu diversos artigos em jornais da cidade e região sobre o assunto, é um dos lutadores por esta causa de preservação do rio Bananeiras em Lafaiete, mas, os resultados estão aí: nada foi feito de concreto, e parece que as autoridades preferem fazer vista grossa ou até seja possível, que não tenham a devida consciência de preservar a quem tudo nos dá que é a natureza.
OURO PRETO
Em Ouro Preto a situação ainda é pior, as encostas foram ocupadas desordenadamente e a cidade enfrenta ainda a carência de áreas adequadas para a expansão urbana. O grande crescimento da população, a concentração de construções em torno dos córregos, rios, e encostas, é de alarmar. Um plano Diretor para a cidade, sobre assunto base do patrimônio, e incluso deveria ter um perfil geologicamente delineado para proteção e segurança do povo, só foi prometido, debatido, falado e politicamente incapaz de sair do papel. E o resultado está aí: desmoronamentos de encostas.
Até mesmo no centro histórico, onde abrigam pessoas com melhores condições econômicas, áreas de risco são ocupadas, casas construídas, corte de encostas para aumentar o quintal, construção de laje em cima de córregos, que não recebem também o tratamento necessário, como acontece no bairro Pilar. Tudo isto demonstra que não é só onde moram pessoas carentes, que habitam ali por não terem aonde ir, por não ter um apoio político que ocorre este tipo de problema.
ESTUDO PUBLICADO NA REVISTA REM- Revista Escola de Minas – OURO PRETO
Além do já mencionado artigo publicado na REM-Revista Escola de Minas, citado acima pelo Engº Glaycon de Paiva, em 91, e 2000, outro importante estudo publicado pela mais antiga revista técnico-cientifica da América Latina, a respeitada – REM – em setembro de 2003, intitulado “Influência da Expansão urbana nos movimentos em encostas na cidade de Ouro Preto” aborda sobre o assunto. Onde os doutores em geologia, como Antônio Luiz Pinheiro – Frederico Garcia Sobreira e Milene Sabino Lana, já apontavam para os riscos desta expansão e crescimento urbano e a ocupação de encostas, beira de córregos, rios e etc. Uma desgraça anunciada.
A publicação relata que desde o início do século XXVII, a cidade enfrenta problemas com a ocorrência de deslizamentos em encostas na região urbana. No início de seu povoamento, a ocupação buscou incorporar aos poucos espaços planos existentes entre seus córregos e montanhas, o topo das colinas, cume dos morros e vales mais largos.
Com o passar do tempo, já nas décadas de 80 e 90 surgem novos bairros, como Pocinho e Santa Cruz, ambos sem nenhum planejamento, e outros diversos.
Segundo os estudos apresentados por estes doutores em geologia, desde o ano de 2003 a cidade já carecia do uso de conhecimento das propriedades, e as características dos seus terrenos. De acordo com Fernando, a cidade precisa conhecer isto para desenvolver de forma harmônica, viabilizando um crescimento ordenado.
Nesta época, este estudo já avaliava que as transformações sofridas pela cidade, em função dos assentamentos urbanos crescentes, interferiram de maneira acelerada e intensa na estabilidade das encostas. E eles afirmavam: “Este trabalho apresenta uma discussão sucinta a respeito do problema de ocupação de encostas na cidade, enfatizando o problema de ocupação da encosta do Morro do Curral, área em que já foram desenvolvidos estudos geotécnicos (Fernandes 2000 e Pinheiro 2002) que descreveram e caracterizaram problemas de ruptura em diversos setores da encosta”.
O Morro do Curral
Situa-se a oeste da Praça Tiradentes, no eixo histórico da cidade e estende-se até o Bairro Jardim Alvorada, divisando com o bairro São José, Praça Rio Branco, até a Praça Cesário Alvim e pode ser visto de todo centro histórico, constantemente observado devido ás rupturas.
O Histórico da área apresentado neste estudo realizado no ano de 2003 diz o seguinte: “No Morro do Curral existem sinais evidentes de movimentos de massa ocorridos no passado e também indícios de possíveis movimentos que estão acontecendo no presente, como aqueles que poderão vir no futuro, como mostra trabalho executado em áreas desta encosta por Fernandes (2000) e Pinheiro (2002).
Dos movimentos de massa ocorridos no passado, o de maior importância foi o de 1979, a montante do bairro Vila São José, com um volume aproximadamente de 100.000m de material. “Este acidente motivou a execução de obras de terraplanagem com o objetivo de mover o material rompido e alterar a geometria da encosta, de forma a aumentar a sua estabilidade.”
Na base da encosta do Morro do Curral, em área estudada por Fernandes relatada nesta publicação da Revista REM, encontram-se as instalações do Centro de Artes e Convenções, local onde são realizados inúmeros congressos no decorrer do ano. Está ali o prédio da Reitoria e mais para frente a tradicional Escola Dom Velloso. Abaixo da montanha está localizada a Praia do Circo, onde existem residências, comércio e até o centro administrativo da prefeitura municipal.
O TRABALHO DOS GEÓLOGOS COM RELAÇÃO À CARACTERIZAÇÃO DA ÁREAA publicação da REM traz também a caracterização desta área e nesta etapa foi feito o reconhecimento de todo o Morro do Curral. “Este levantamento teve como objetivo delimitar uma área específica de maior interesse, onde foram executados trabalhos de levantamento de campo.” Depois de todo o reconhecimento do Morro do Curral foi escolhida uma área adjacente à estudada por Fernandes, de grande complexidade geológica, com presença de desdobramentos que influenciam diretamente os mecanismos de ruptura observados. A área escolhida situa-se a montante da Praça Rio Branco.
Ainda de acordo com a publicação o estudo revela que: “No sopé da encosta há um depósito de tálus com inclinação de 4500. Esse depósito possui pouquíssima cobertura vegetal, é composto por blocos de xistos de tamanho dessimétrico a métrico, envolvidos por uma matriz de material fino (silite) Houve movimentação recente, janeiro/2003 o que acarretou deslizamentos, invadindo áreas de serviços das casas que se localizam na base da encosta. Estas áreas de serviços foram construídas a partir do capeamento do córrego Caquende, que corta a base da encosta”.
Trabalhos como estes desenvolvidos por Fernandes e Pinheiro são de grande importância para a orientação acerca dos terrenos e podem ajudar no planejamento da ocupação urbana, mas parece que as autoridades ainda não se atentaram para o assunto.
A GRANDE PREOCUPAÇÃO
A falta de conscientização da população, o descaso e a omissão dos órgãos responsáveis para este tipo de fiscalização, a falta, do Plano Diretor, de um planejamento para a criação de novos centros e a retirada de todas as construções irregulares é um trabalho que exige vontade, força, e inteligência e determinação. Infelizmente este assunto só é trazido à tona na hora em que as catástrofes já aconteceram.
O problema é mais grave do que se pode imaginar. Há necessidade urgente de conscientizar a população e dar a ela condições de obter novas habitações, em local novo, afinal quanta verba já se passou por esta cidade?
Lembramos-nos do Prof. Glaycon de Paiva, que citava em suas palestras “que qualquer cidade economizaria e muito, se tivesse em seu quadro de pessoal um geólogo, e a população só receberia a licença para construção após analise do terreno…”.
Evitaríamos com certeza o desastre de desmoronamentos e temeridade do cidadão ao iniciar o período de chuvas, e afastaríamos a sombra da morte anunciada…
Todos os políticos neste momento devem se unir, assim como a população em torno de buscar soluções para que no próximo ano coisas piores não aconteçam. Medidas emergências estão sendo tomadas, mas é preciso muito mais. É preciso planejar e liberar espaços para criação/expansão um novo centro e abrigar essa população e não retirá-las na última hora, correndo riscos, deixando-as à mercê de aluguéis, como foi feito antes. É hora de solucionar a urgência, mas quando tudo isto passar a luta deverá continuar para que o futuro seja melhor.
Devemos lembrar que a análise destes geólogos foi feitas desde 1991, e em 2000, e 2003 tendo 21 anos já se passados desde que essas publicações circularam na própria cidade de Ouro Preto, como na REM-Revista Escola de Minas, alertando sobre as encostas. Caso alguém saiba mais informações mais recentes de estudos e providências apresentadas, por favor, envie para nosso e-mail. Esta luta deve ser de todos nós!

Parabéns pela matéria! http://www.jornaltribunalivre.com.br/2012/01/noticias/geologos-alertam-para-o-perigo/
Fiquei arrasada!!! O desmoronamento em frente à rodoviária soterrou a casa da minha mãe e pasmem ninguém havia avisado a minha família sobre o risco do desabamento!!!